Desde a Antiguidade, os seres humanos levantam os olhos para o céu em busca de sinais e beleza. Entre os fenômenos celestes mais intrigantes estão as conjunções planetárias, momentos em que dois ou mais planetas parecem se aproximar no firmamento. Algumas dessas conjunções são frequentes e podem ser vistas todos os anos, mas outras são tão raras que acontecem apenas algumas vezes por século, tornando-se verdadeiros espetáculos astronômicos.
Observar esses alinhamentos é uma experiência única, não apenas pela estética do céu, mas também pela sensação de conexão com o cosmos. A boa notícia é que, com um pouco de preparo e atenção, qualquer pessoa pode acompanhar esses eventos — mesmo sem equipamentos caros.
Neste artigo, você vai descobrir o que são e como observar conjunções raras de planetas, além de aprender dicas práticas para identificá-las, escolher o melhor momento para vê-las e até mesmo registrar o fenômeno em fotografias simples.
O que são conjunções planetárias?
As conjunções planetárias são eventos astronômicos em que dois ou mais planetas parecem estar muito próximos uns dos outros no céu. Essa proximidade é apenas aparente, já que, na realidade, os corpos celestes continuam separados por milhões de quilômetros. O que ocorre é um alinhamento visual entre a Terra, o observador e os planetas envolvidos.
Do ponto de vista astronômico, uma conjunção acontece quando dois objetos (planetas, Lua ou até estrelas brilhantes) compartilham a mesma ascensão reta, ou seja, a mesma coordenada celeste em termos de longitude no céu. Para quem observa da Terra, isso se traduz em pontos de luz muito próximos, criando uma cena impressionante.
Nem todas as conjunções têm a mesma relevância. Algumas são mais comuns, como a de Vênus e Júpiter, que pode ser observada com relativa frequência. Outras são raríssimas, envolvendo três ou mais planetas brilhantes visíveis a olho nu, fenômenos que podem demorar décadas ou até séculos para se repetir.
Esses eventos sempre despertaram interesse cultural e científico. Civilizações antigas os interpretavam como presságios ou mensagens divinas, enquanto hoje sabemos que são resultados previsíveis da dinâmica orbital. Ainda assim, o encanto permanece intacto — afinal, ver vários mundos brilhando juntos no céu é uma lembrança marcante para qualquer amante da astronomia.
Por que algumas conjunções são consideradas raras?
Nem todas as conjunções possuem o mesmo impacto ou frequência. Algumas ocorrem a cada poucos meses, enquanto outras só voltam a se repetir depois de muitas décadas. Essa diferença se explica pela variedade das órbitas planetárias e pelo tempo que cada planeta leva para dar uma volta completa em torno do Sol.
Planetas mais próximos da Terra, como Vênus e Marte, movem-se rapidamente em relação ao nosso ponto de observação, o que faz com que suas conjunções sejam mais recorrentes. Já planetas distantes, como Júpiter e Saturno, possuem órbitas muito mais longas, e o alinhamento entre eles demora muito mais para acontecer novamente.
Um exemplo clássico é a chamada Grande Conjunção entre Júpiter e Saturno, que ocorre aproximadamente a cada 20 anos. Em 2020, esse fenômeno ganhou destaque mundial porque os dois planetas pareceram estar separados por menos de 0,1 grau no céu — tão próximos que muitas pessoas os chamaram de a “Estrela de Belém” da era moderna. Esse tipo de alinhamento mais fechado é particularmente raro.
Outro fator que determina a raridade é a quantidade de planetas envolvidos. Enquanto conjunções duplas são relativamente comuns, alinhamentos de três, quatro ou até cinco planetas brilhando juntos na mesma região do céu são espetaculares e muito menos frequentes. Algumas dessas formações podem levar séculos até se repetirem em condições favoráveis de visibilidade.
Assim, quando falamos em conjunções raras, estamos nos referindo a eventos em que a posição orbital e a perspectiva da Terra criam uma configuração especial, muitas vezes única dentro de uma vida humana. É por isso que os astrônomos amadores valorizam tanto a oportunidade de acompanhar esses momentos — eles são, literalmente, instantes cósmicos irrepetíveis para nossa geração.
Exemplos de conjunções históricas memoráveis
Ao longo da história, algumas conjunções chamaram tanta atenção que foram registradas em documentos antigos e até influenciaram a cultura popular e religiosa. Esses eventos mostram como os alinhamentos planetários sempre fascinaram a humanidade.
A “Estrela de Belém” (7 a.C. ou 6 a.C.)
Muitos estudiosos acreditam que a famosa estrela mencionada nos relatos bíblicos pode ter sido, na verdade, uma conjunção entre Júpiter e Saturno, visível na constelação de Peixes. Essa hipótese não é consenso, mas demonstra como os alinhamentos já eram interpretados como sinais divinos ou presságios.
A grande conjunção de 1623
Uma das mais próximas registradas entre Júpiter e Saturno ocorreu em 1623. Infelizmente, ela não foi facilmente visível porque os dois planetas estavam muito perto do Sol. Ainda assim, ficou marcada como uma das mais raras em termos de proximidade angular.
A conjunção de 1981
Nesse ano, houve um alinhamento de seis planetas (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno e a Lua) ocupando uma pequena faixa do céu. Foi um espetáculo para os astrônomos e gerou até teorias de que tal alinhamento poderia afetar a Terra com forças gravitacionais — algo que, claro, foi desmentido cientificamente.
A conjunção de 2020
A já mencionada Grande Conjunção de Júpiter e Saturno em dezembro de 2020 foi um evento observado por milhões de pessoas ao redor do mundo. Os dois planetas pareceram quase fundir-se em um único ponto luminoso, proporcionando imagens espetaculares, especialmente em telescópios simples e até em fotografias feitas com celulares.
O alinhamento de 2022
Em junho de 2022, uma conjunção ainda mais rara pôde ser observada: cinco planetas alinhados (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno), todos visíveis a olho nu antes do nascer do Sol. Esse evento não acontecia desde 2004 e só deverá se repetir em décadas futuras.
Esses exemplos mostram que cada geração pode testemunhar ao menos uma conjunção especial, mas algumas são tão raras que só acontecem uma vez a cada muitos séculos. É justamente essa exclusividade que torna cada observação um marco pessoal e coletivo.
Como observar conjunções de planetas a olho nu
Uma das grandes vantagens das conjunções é que, diferentemente de muitos outros fenômenos astronômicos, elas podem ser vistas sem nenhum equipamento especial. Com um pouco de atenção, qualquer pessoa pode localizá-las e apreciar o espetáculo.
Escolha do local
O primeiro passo é escolher um lugar adequado. Locais afastados das luzes artificiais (poluição luminosa) oferecem uma visão mais nítida do céu. No entanto, conjunções planetárias costumam ser suficientemente brilhantes para serem vistas até mesmo de cidades, desde que se tenha um horizonte relativamente aberto.
Melhor horário para observar
As conjunções geralmente acontecem próximas ao nascer ou pôr do Sol. Por isso, é importante verificar a hora exata em que os planetas estarão mais próximos no céu. Aplicativos gratuitos de astronomia, como Stellarium, SkySafari ou Star Walk, ajudam a identificar a melhor janela de observação.
Identificação dos planetas
Para quem está começando, pode ser difícil diferenciar planetas de estrelas comuns. Uma dica é lembrar que planetas não cintilam como as estrelas. Eles aparecem como pontos de luz firmes e, em conjunções, destacam-se por estarem muito próximos uns dos outros.
Uso de binóculos para um detalhe extra
Embora o olho nu seja suficiente, um par de binóculos simples pode enriquecer a experiência. Com eles, é possível notar cores diferentes entre os planetas (como o tom avermelhado de Marte ou o brilho amarelado de Saturno) e até observar luas maiores de Júpiter, quando ele participa da conjunção.
Registrar o momento
Mesmo com um celular, é possível fotografar conjunções. Basta apoiar o aparelho em um tripé ou superfície estável e utilizar o modo noturno ou ajustes manuais para captar a cena. Esse registro pode se tornar uma lembrança única de um evento raro.
Observando conjunções com telescópios simples
Embora o olho nu seja suficiente para apreciar uma conjunção, um telescópio simples ou artesanal pode transformar a experiência, revelando detalhes invisíveis a olho nu.
Vantagem de telescópios na observação
Enquanto a olho nu vemos apenas pontos luminosos próximos entre si, no telescópio é possível distinguir claramente discos planetários e até características marcantes, como os anéis de Saturno ou as faixas de nuvens em Júpiter.
Campo de visão
Para conjunções muito próximas, como a de Júpiter e Saturno em 2020, um telescópio de campo amplo permite ver dois planetas ao mesmo tempo na mesma ocular — uma experiência rara e memorável. Já para conjunções mais amplas, pode ser necessário mover o telescópio de um planeta para o outro.
Telescópios caseiros
Mesmo telescópios artesanais de baixo custo oferecem bons resultados. Um tubo com lentes reaproveitadas ou espelhos pequenos já consegue revelar as diferenças entre os planetas e tornar a conjunção muito mais envolvente. Consulte o artigo Como montar um telescópio caseiro com materiais de baixo custo em menos de uma hora para o passo a passo.
Uso de binóculos astronômicos
Se não houver telescópio disponível, binóculos astronômicos de 7×50 ou 10×50 também oferecem uma visão surpreendente, permitindo perceber não só os planetas, mas também estrelas próximas que enriquecem o campo visual.
Dicas práticas de observação
- Evite noites muito úmidas, pois a atmosfera instável distorce a imagem.
- Deixe o equipamento se adaptar à temperatura externa por alguns minutos antes da observação.
- Use apoios estáveis (tripés ou suportes improvisados) para reduzir vibrações.
Com esses cuidados, até um equipamento modesto pode proporcionar uma experiência digna de observatórios profissionais.
Registrando conjunções com fotografia amadora
As conjunções de planetas são um dos fenômenos astronômicos mais fotogênicos, pois não exigem câmeras profissionais para gerar imagens bonitas e significativas. Até mesmo um smartphone comum, quando bem utilizado, pode registrar o momento de forma surpreendente.
Uso de smartphones
A maioria dos celulares modernos conta com modo noturno ou ajustes manuais de câmera. Ativar esses recursos permite aumentar o tempo de exposição e capturar mais luz, destacando os planetas em contraste com o fundo escuro do céu.
Tripés ou apoios improvisados
Um dos segredos para conseguir boas imagens é evitar tremores. Apoiar o celular em um trip barato ou mesmo em uma superfície firme (muro, cadeira, mochila) já faz uma enorme diferença no resultado final.
Configurações básicas
- ISO baixo a médio (200 a 800): ajuda a reduzir o ruído digital.
- Exposição entre 1 e 4 segundos: suficiente para capturar o brilho dos planetas sem borrar o movimento aparente.
- Foco manual no infinito: garante nitidez das luzes distantes.
Enquadramento criativo
Além de fotografar apenas os planetas, pode-se incluir elementos da paisagem terrestre, como árvores, montanhas, construções ou lagos. Isso dá contexto à imagem e a torna ainda mais impactante.
Softwares gratuitos de edição
Depois do registro, programas gratuitos como Snapseed, GIMP ou Darktable ajudam a realçar contraste, cores e nitidez. É possível destacar os tons diferentes dos planetas e dar mais profundidade à cena. No artigo Ferramentas digitais gratuitas para reduzir ruído e melhorar detalhes em fotos do espaço explicamos em detalhes as várias possibilidades.
Compartilhando o resultado
Publicar as fotos em redes sociais e comunidades de astronomia é uma ótima forma de trocar experiências e inspirar outros observadores a tentarem o mesmo. Muitas vezes, registros feitos com celulares são tão expressivos quanto os de câmeras profissionais.
Assim, a fotografia amadora torna-se uma ponte entre a experiência pessoal e a partilha coletiva, transformando cada conjunção observada em uma memória eterna.
Conclusão
As conjunções planetárias são um dos fenômenos mais acessíveis e fascinantes da astronomia. Diferente de eclipses, que são raros e muitas vezes visíveis apenas em regiões específicas, conjunções podem ser observadas por qualquer pessoa, em praticamente qualquer lugar do mundo.
Neste guia vimos que não é preciso equipamentos sofisticados para apreciá-las. A olho nu, já é possível perceber a proximidade entre planetas brilhantes; com binóculos ou telescópios simples, o espetáculo ganha ainda mais detalhes; e, com a ajuda de um celular, a experiência pode ser eternizada em imagens surpreendentes.
Além disso, conhecer exemplos históricos de conjunções ajuda a perceber como esses eventos sempre impactaram a humanidade, inspirando mitos, registros científicos e até teorias astronômicas. Hoje, temos a vantagem de contar com aplicativos e ferramentas digitais que nos permitem prever e planejar cada observação com precisão.
Em última análise, observar conjunções é uma forma de reconectar-se com o céu e perceber que fazemos parte de um universo em constante movimento. Cada alinhamento, por mais simples que pareça, é um lembrete da grandiosidade do cosmos e da oportunidade que temos de apreciá-lo — mesmo com os recursos mais modestos.
Da próxima vez que ouvir falar de uma conjunção rara, não deixe passar: escolha um bom local, prepare seus olhos (ou binóculos) e aproveite o espetáculo. Afinal, cada conjunção é única e pode se tornar uma das suas memórias astronômicas mais marcantes.




